
Olá a todos. Como estão? Para quem não me conhece ou não se lembra de mim sou George McGerry. Nasci, vivo e cresço em Liverpool. Tenho 60 anos e sou jornalista. Estou-vos a relatar mais uma das minhas antigas experiências jornalísticas, há cerca de dez anos. Experiências essas que me fazem crescer sempre em direcção a um bem que… a um bem que não tem tecto!
Enfim… depois da morte do velho Paul decidi não deixar esmorecer um simples dia que, no meu coração, durou mais do que 24 horas… durou o suficiente para eu entender que de facto viver não é um dia não acordar….é servir! Mas servir o quê? Quem? Para quê? Como?
7:00 Como todos os dias o despertador cacarejou. Depois de um banho e de um pequeno-almoço rápidos recebi uma notícia da minha adorada Mary:
- George, o Mike está doente e tem febre.
- Não estará ele a fazer fita para não ir à escola? - Disse eu.
- Ele é parecido contigo mas nem tanto.
De facto tentei fazer força para não me rir, mas não conseguia, ela bem se lembrava dos tempos em que, no liceu, eu me abrigava nos atestados médicos do meu pai para faltar à escola e preparar novas cartas de amor para lhe escrever. Pois, com amores antigos já conhecêssemos as nossas manhas.
Naquele dia levava somente a Rita para a escola, porque o John tinha tido uma visita de estudo à Escócia. O Mike continuava a perguntar “quando é que o John volta lá da terra dos homens que se vestem à mulher?”
Despedi-me da Mary, entrei no carro e lá vinha a Rita a correr limpando umas quantas migalhitas de pão que lhe tinham ficado na boca.
- Papá –disse ela.
- Diz.
- Sabes, acho que ultimamente tens dado muita importância ao jornalismo e pouca a nós, lá em casa.
Aquilo caíra-me que nem uma bomba! Agora que eu me tinha começado a preocupar-me com coisas diferentes, novas e transformadoras é que tudo estava mal? Não sei muito bem o que tinha encontrado. Seria Deus ou não? Mas, a verdade é que, aquilo que descobri lembrava-me os tempos de criança, quando provava as novas compotas da minha avó Emely, uma doçura diferente e muito rica. Aquela afirmação deixava-me de rastos. Fiz alguma coisa mal?
De facto já há muito tempo que não estava tantas vezes com eles, e me preocupava em escrever novos artigos sobre o Paul… se calhar tinha-me descuidado… Fiquei alguns segundo em silêncio.
- Tens razão – disse eu – nestes últimos tempos de facto não tenho estado muito convosco. Mas eu também não sei muito o que fazer. Será que devo rapar o bigode para a Mary gostar mais de mim?
- Oh pai, não sejas parvito. Leva-a ao cinema. Vai ao quarto do Mike levar-lhe o jantar, agora que ele está doente. Ajuda o John nos trabalhos de casa. Papá, tu sabes melhor que ninguém, que há tantas maneiras de dizer “gosto de ti”.
Fazia-me lembrar a mãe. Aqueles olhos vivos, aquela voz que trazia e abria novos horizontes. Como uma criança na escola, sentado ao volante…aprendia. Mas entretanto chegamos à escola.
- Não te esqueças do que te disse, papá!
- Não, não me esqueço. E obrigado Rita.
Ela sorriu e num salto meio desajeitado saiu do carro e foi logo de encontro às suas amigas.
Sorri, desviei o olhar, segui o meu caminho…estrada fora, dia adiante! As rodas deslizavam, a jeito de quadrúpede, na monotonia do trânsito, para uns eloquente, para outros “boring”! Lembro-me que registei uma frase que estava escrita nas paredes de uma monumental casa novecentista: “Nunca mãos vazias deram tanto”. Primeiro nunca gostei dessa parvoíce de escreverem nas paredes, e depois pensei: “Que estupidez, como é que uma coisa vazia pode dar alguma coisa? Este mundo está maluco ou é impressão minha?”
Uns quilómetros antes de chegar ao trabalho um carro bateu-me. Comecei a resmungar com ele. Um sentimento estranho invadiu-me, parecia que já me tinha esquecido de tudo o que a minha filha me dissera, só por causa de um arranhão na pintura do carro. A verdade é que fora de mim consegui por o pobre velho a ficar nervoso. Quando lhe gritei mais, o pobre homem começou a chorar.
Como que escondido na minha conchinha de orgulho fui-me embora. Mas em voz trémula e agradecida o pobre homem disse-me:
- Obrigado por me ter perdoado.
Nessa hora fugi a sete pés. Aquele agradecimento estranho fez-me lembrar o velho Paul, fez-me lembrar que fizera algo de errado. Fui rapidamente para a deserta rua 23. O santuário do velho amigo Paul. Amigo por um dia, qui sá para sempre?
Nesse dia nem liguei para a Mary, nem para saber sequer do Mike. Não dei sequer um “bom dia” aos meus companheiros. Amuei nas minhas fraquezas, remoendo por dentro com os remorsos de aquela atitude tão má, por causa de um mero toque no carro.
“Porque é que fui tão mau? Eu sou mesmo fraco! Cedo em relação a tudo e nunca faço nada desta vida! Porque é que Deus não nos faz fazer o bem? Parece tudo uma farsa, a minha vida parece uma farsa”!
Entretanto sol rasgava lentamente o céu, em lentos raios perfurantes. Recebi uma mensagem. Olhei para o telemóvel. Era uma mensagem da minha Rita.
“ Pai não te esqueças
do que te disse.
Leva a mãe ao cinema,
Ajuda a tratar do Mike…
O Paul faria o mesmo. Bjinhos”
Não sei! Não sei mesmo o que foi que me fez sair do meu trabalho na hora do almoço para ir buscar a Mary ao seu escritório de advogada. Fiz-lhe uma surpresa. Almoçamos e de seguida vimos um filme no cinema. Lembro-me… lembro-me que o meu relógio já marcava as 2 da tarde quando comprei dois bilhetes para um concerto dos U2 para o John e para a namorada dele.
Levei-a ao escritório e de seguida sem dizer nada a ninguém fui a casa onde se encontrava o Mike com a senhora Susan. Uma senhora dos seus 70 anos que quando estava alguém doente ela ia acompanha-lo…que simpatia. Fui ao quarto do Mike e dei-lhe de beber um chá quente que tinha preparado. Finalmente entendera que o verdadeiro amor e felicidade não está no que se dá, mas sim na maneira como damos aquilo que damos, entendem?
Sentia-me tão feliz pelo que fizera, mesmo depois de o Dr Richard me ter telefonado a mandar um sermão por não lhe ter avisado que não ia trabalhar de tarde. Mas naquela altura, tudo para mim era secundário, excepto o tudo que tinha feito.
Mais tarde chegaram todos a casa. A Rita tinha juntado uns trocos e comprara um bolo. Todos juntos tivemos um jantar especial. Foi o meu primeiro jantar especial em família, em que não haviam gravatas, bons vinhos, comidas fantásticas, empregados de mesa, etiquetas, conversas elevadas. Havíamos nós! Haveria Deus? Na altura perguntei-me, mas hoje tenho a certeza que sim. Tudo foi tão bom.
Foi aqui que percebi que a simplicidade não é ser miserável, mas é fazer das pequenas coisas grandes. Nesse dia fui eu a lavar a loiça e foi das maiores entregas de mim mesmo que alguma vez fiz. Percebem? Fiz duma pequena coisa grande, não pelo que fiz, mas pelo amor que pus no que fiz. Qual foi a força que nos moveu para este dia cheio de amores gratuitos? É aqui que Deus começa… é aqui que Deus está…é aqui que Deus não acaba…!
De noite fui fumar um cigarro enquanto olhava o firmamento. Um habito que ganhei de criança quando a minha avó Emely cantava uma canção da sua terra natal, enquanto algumas três lágrimas se agarravam nas suas ternas rugas de avó: “Firmamento, é o céu azul, remendado com estrelas, desde o norte ao sul, desde o mar às montanhas, desde o coração às nossas entranhas”.
Naquela altura fui surpreendido com os passos calmos da Rita. Chegou, olhou-me, sorriu, sentou-se comigo no chão. E em silêncio, saboreamos a suavidade de alguns minutos… sabíamos o que estávamos ambos a pensar. De repente ela perguntou-me:
- Papá, como fizemos isto?
Não sei. Mas não sei mesmo porquê, nem como mas saiu-me uma frase que só ali tivera sentido e que de absurdo passou a ser a grande verdade que conquistou o meu coração.
- Rita, não sei bem como, mas acho que foi Deus, o amor em nós. De facto “nunca mãos vazias deram tanto”!
- Sabes papá, gosto muito de ti!
Abraçou-se a mim.
- Sabes Rita, estou muito orgulhoso de ti!
Pai e filha… olhamos muito tempo o céu sem trocarmos uma única palavra. Comovidos? Felizes? Contentes? Alegres? …? Não! Vivos com sentido! Vivos por amar desmedidamente o que parece impossível.
No dia seguinte acordei e depois de ter levado o Mike, já curado, e a Rita, fui para o trabalho. Sentia-me como o Mike… curado! Sentia-me como o Paul… com sentido!
Estava a dirigir-me para o trabalho e vi um carro estacionado. Era o carro do velho senhor que no dia anterior tinha batido no meu carro. Estacionei o meu carro. Corri e entrei num café próximo onde encontrei o pobre senhor, sozinho a tomar um copo de leite e um pão. Ele olhou-me com um certo receio que lhe fosse exigir algo. Mas eu abracei-o e pedi-lhe perdão pelo meu acto vergonhoso e repleto de orgulho.
Ele comoveu-se e disse que há muito tempo que ninguém lhe dava aquela atenção. Eu sorri, paguei-lhe o pequeno-almoço e comprei-lhe um croissant misto.
Fui-me embora, mas ele interpelou-me antes de eu sair.
- Sabe meu senhor, eu não sou rico. Mas o senhor é muito.
- Olhe que não sou assim tão rico! – disse sorrindo.
- Mas o seu coração é! Vou-lhe dar um papel que um dia um grande amigo meu me deu. É a única coisa que lhe posso dar, é o melhor que tenho. Entregou-mo. Eu sorri e fui para o carro. Quando lá cheguei abri o papel e vi uma carta que terminava da seguinte forma:
“Meu amigo, ATREVE-TE! Um abraço deste teu amigo para sempre: Paul, o louco feliz e varredor de ruas”
Ao ler aquilo desatei a correr a ver se encontrava o senhor. Mas já não vi ninguém. Mas depois parei de correr e percebi que o meu coração tinha crescido mais uns centímetros. Afinal “nunca mãos vazias deram tanto”!
Eram 10:00 da manhã. Fechei o bloco. Era cedo mas, já tinha artigo!