27 Junho 2006

O MAGO (Senhor, ensina-me a rezar)

Consta que há muitos anos numa aldeia, havia um mago que lá ia de tempos a tempos para ensinar, o que achasse importante, aquelas gentes. Naquele ano, como em todos os outros, a sua chegada era aguardada por todos com ansiedade e surpresa. Muitos enfeitavam já as suas casas para a ocasião inesperada de o receberem. A felicidade, a ansiedade e a surpresa decoravam aquela aldeia.
Ora, depois de acolhido, o sábio disse que lhes ia propor um jogo muito simples. Este jogo consistia no seguinte: “cada um de vós receberá um destes gigantescos sacos vazios, que são para encher de maçãs. Quando eu assobiar, todos pegam nos seus respectivos sacos, com as maçãs que têm e depositam-nas no chão, separado dos outros, para eu ver quem encheu mais” – disse o sábio, alisando a sua sábia barba austera e comprida.
Todos acharam este desafio extremamente simples. Começaram a subir a todas as macieiras daquela zona, corriam para ver quem trazia o maior número de maçãs para encher o seu saco. Ora, o pequeno Lucas não foi logo a correr, embora todos o incentivassem a ir. Ele não achava que aquilo seria assim tão fácil e “pensabudo” fitava o saco com dúvidas. Pensou. Apalpou o saco de serapilheira. Os seus olhos iluminaram-se com cores de ideia, pegou no saco e correu para casa.
A algazarra, as corridas em busca de mais maçãs continuavam. Jeremias já discutia com a sua mulher Sara (“Já te disse para apanhares essas maçãs”), o velho Zé pediu ao neto para ir buscar um escadote (“Já não tenho idade para subir a macieiras. Que diabo!”), Simão acusava o António de lhe ter roubado umas quantas maçãs… contudo a demanda continuava.
Enquanto isso se passava, o pequeno Lucas era olhado com desprezo por aqueles que, ao trazerem imensas maçãs, pensavam “enfim, crianças”! O velho sábio fitava sabiamente o pequeno. Finalmente Lucas trouxera de novo o saco. Fora então buscar maçãs, quando já todos tinham os sacos quase cheios.
- Só vens buscar maçãs agora Lucas?
Ele sorriu. Encheu as suas duas pequenas mãos com duas pequenas maçãs que estavam no chão. Correu para o seu saco e lá as pôs. Quando acabou de as pôr no seu saco, o sábio assobiou. Todos pegaram nos seus sacos que estavam no chão. Contudo, ao levantarem para os porem às costas, todas as maçãs apanhadas caíram por terra. Os sacos que o sábio dera não tinham o fundo cozido.
Só Lucas seguiu, pegou no saco e poisou as maças no local indicado, sob olhares boquiabertos. Muitos tinham apanhado milhares de maçãs naquela meia hora… Lucas tinha duas!
O mago levantou-se da sua sábia cadeira, e apontando para a criança com o seu sapiente cajado disse:
- Não vos preocupeis tanto com o muito fazer, mas sim com o saber e conhecer aquilo que quereis fazer.


Tantas vezes queremos fazer, receber e dar tanto por Deus, e esquecemo-nos completamente do momento silencioso e escondido em que, ao rezarmos, cozemos o fundo dos nossos sacos de serapilheira que servirão de amparo para o muito ou pouco que fazemos. Sem oração, sem relação com o Senhor onde iremos nós? Sem oração toda a entrega se poderá tornar numa profissionalização de boas acções. Com Deus, com o nosso coração tudo se poderá tornar em amor. Sem oração o muito e o pouco são nada, com oração o pouco faz-se muito e o muito torna-se pouco perante “tanto bem recebido”.

“Senhor, ensina-me a rezar!”


PS - À Cecília e à Filipa.

14 Junho 2006


"Não tenhais medo de vos dar a Cristo! Ele não tira nada, dá tudo!"

Bento XVI

21 Abril 2006

Em tudo amar e servir

"Há pouco, visitava uma província jesuítica da América Latina, Fui convidado, como com certo receio, a celebrar a Missa numa periferia, a mais pobre da região, segundo diziam. Moravam ali cerca de 100.000 pessoas, no meio da lama, pois estava situada num barranco de baixada. Quando chovia, ficava quase tudo inundado.
A Missa foi celebrada num pequeno cômodo, todo arruinado e aberto, sem porta. Cachorros e gatos entravam e saíam sem algum problema. Comecei a Missa. Os cantos, acompanhados por um violão (que não era certamente de Andrés Segovia), pareceram-me maravilhosos: Amar é entregares-me / esquecendo-me de mim / buscando que o outro / possa ser feliz. E continuava: Que lindo é viver para amar / que grande é ter para dar / dar alegria e felicidade / dar-se a si mesmo: isto é amar!
À medida que o canto prosseguia, eu senti que me vinha um nó na garganta e tinha de me esforçar para continuar a Missa. Aquela gente, que parecia não ter nada, cantava e estava disposta a dar-se a si mesma para dar alegria e felicidade!
Fiz uma homilia breve, dialogada. Disseram-me coisas que dificilmente se ouvem nos discursos bem elaborados. Coisas muito simples, mas profundas e humanamente sublimes. Uma velhinha me disse: 'O senhor é o superior de todos estes padres, não é? Então, senhor, muito obrigado, porque seus padres jesuítas nos trouxeram o grande tesouro que nos faltava e o que mais queremos: a Santa Missa.' Um rapazinho declarou publicamente: 'Senhor, nós lhe queremos muito bem, porque estes padres nos ensinaram a amar nossos inimigos. Ontem, eu tinha arranjado uma faca para matar um colega, que em dava muita raiva. Mas, depois de ouvir o padre explicar o Evangelho, comprei um picolé e o dei a meu inimigo.'
Quando saía, um homem grande e robusto, que quase dava medo por seu aspecto ameaçador, me disse: 'Venha à minha casa. Tenho uma coisa para lhe dar.' Fiquei indeciso, sem saber o que fazer, mas o padre, que me acompanhava, me disse: 'Aceite, Padre, é muito boa gente!' Fui a sua casa, um barraco meio derrubado. Deu-me uma cadeira um pouco manca. Ali, de onde eu estava, via-se o pôr do sol. O homem me disse: 'Senhor, veja que lindo!' E ficamos em silêncio por uns minutos. O sol se foi. O homem disse: 'Eu não sabia como agradecer tudo o que vocês têm feito por nós. Não tenho nada para oferecer, mas pensei que gostaria de ver este pôr do sol. Gostou, não é? Boa tarde!' E apertou-me a mão."




Pedro Arrupe

21 Fevereiro 2006

Sozinho, da sombra para a Luz


Começo assim a minha participação neste blog. Por ter estado sozinho. É estranho, não é? Com a sorte de ter estado sozinho durante uma hora, este sábado, dia 18 de Março, na capela da conversão de Santo Inácio, em Loiola.

E foi uma hora que pareceu um minuto, como as horas que um dia passaremos no Céu, quando não é preciso mais nada que o estar e o olhar. Olhar por dentro o que Deus vai fazendo em nós, e os momentos cheios de vida associados a pessoas, conversas, comunhão de fé e sentimento de sermos escolhidos para amar.

Esta hora fez-me pensar na solidão e do quanto as vezes a sua sombra nos assusta. E se essa sombra fosse apenas o momento antes de uma luz que ilumina a certeza mais profunda da nossa vida? De que somos escolhidos para o Amor e no silêncio se guarda a força que no leva muito para além dos nossos limites. Sermos grandes.

Estar naquele lugar é estar na comunhão do silêncio daquele homem que deixou que a escuridão da solidão lhe abrisse a luz da Vida. E já não conseguiu parar… e assim aprendi mais um pouco de como é bom estar só, é a oportunidade de Jesus nos dizer que a Vida continua, e depois… missão e alegria!

06 Fevereiro 2006

O Terço e o Pinóquio


Pode parecer ambígua esta relação entre o terço e um ser imaginário feito de madeira que se torna num menino a sério.

Antes de mais queria falar separadamente dos dois. O terço é uma oração “mariana” feita por S. Domingos para que o povo, que sendo analfabeto não conseguia recitar a liturgia das horas nem entender bem o tanto amor contido na Eucaristia sobre a vida de Jesus, rezasse esta bela e simples oração para meditar a Sua vida através de uma repetição de palavras tão simples e bonitas que fazem com que nos emaranhemos na vida de Cristo com um “sim” terno, profundo e com o risco do desafio… como o “SIM” de Maria.
Ora, o Pinóquio era um pedaço de madeira trabalhado pelas do simples carpinteiro Geppetto que, por um toque de magia começou a falar. Depois Geppetto esculpiu-o como um menino, mas feito de madeira, que foi aprendendo que devia ir para a escola e não mentir, até que de repente pelo amor do seu pai/construtor tornou-se um menino de verdade.

Que terá este menino de madeira que se possa relacionar com o terço?

Quando eu era pequenino deram-me um terço de madeira muito bonito. Era pequeno, despojado, num tom de castanho-escuro com algumas contas ligadas por um imenso fio que as trespassava e que, como um monte, essas contas iam incidir a uma cruz pequena, mas ao mesmo tempo tão grande em amor.
Na ambiguidade de um pedaço de madeira, Geppetto ouviu a voz de uma criança e por isso deu a esse pedaço a forma de uma. Da mesma forma, se quisermos, na ambiguidade de umas bolinhas de madeira ligadas por um fio, ouvimos uma voz de amor e salvação que, tal como a Geppetto o levou a concretizar num menino de madeira, o terço deve-nos levar a partir para o concreto a que essa voz desconhecida, mas ao mesmo tempo tão terna e concreta, nos chama a fazer… um menino de madeira?
Porque não um gesto de amor, uma entrega desinteressada, um dar sem esperar nada em troca? Sonhar com as nossas mãos “A Maior Glória de Deus”!
Está certo que por vezes falhamos e não somos capazes de ser verdadeiros com os outros, connosco próprios e com Deus, e por isso mesmo há vezes em que o nariz nos cresce fazendo-nos entrar num desequilíbrio que nos entristece. Mas tal como através do pequeno grilo a fada madrinha não deixava de estar com o Pinóquio quer ele fosse bom ou mau menino, através dos nossos irmãos e de situações do dia-a-dia, Deus não nos abandona nunca. Está connosco mesmo quando caímos, mesmo quando o “nariz” nos cresce por desamor.
Mesmo assim o terço não é um medicamento espiritual instantâneo que nos cura em segundos. O próprio Pinóquio queria ser um menino com sangue a correr nas veias e não com resina…um menino a sério! Mas não foi logo. Teve de esperar, de preservar e de continuar a desejar esse dia em que seria como as outras crianças.
Da mesma forma, rezar o terço não deve ser um “rotineirismo”, nem um “intresseirismo”. Mas um contemplar saboreado “como um aluno de escola” que aprende a amar aos pouquinhos, confiando em Deus e amando os passos e as quedas, os amores e os desamores.
Só assim poderemos traduzir em gestos verdadeiros o que somos naquilo que Deus quer de nós pelo amor, pela verdade e pela entrega. Tal como quando, arriscando a sua vida, Geppetto atirou-se ao alto mar para encontrar o Pinóquio ele se tornou um menino como os outros, somente pelo amor de quem se dispõe a escutar, mesmo que seja através de uns simples pedacinhos e madeira juntos, a voz d’Aquele que nos chama a “Mais” é que poderemos tornar real aquilo que do “aparente” ambíguo se faz vida!
Será isto o amor? Eu acho que sim, mas primeiro façam e depois digam-me!

20 Novembro 2005

Ser santo, missão "in" possivel...(S. Paulo)


Saulo…o famoso judeu, culto e sábio, de família abastada, com o título de cidadão romano, judeu convicto das suas crenças, perseguidor dos cristãos. E hoje Senhor…quem sou eu? Sou Paulo, o homem que tentou encontrar cristãos para os matar, mas antes de tudo isso, Tu mesmo fizeste que eu me encontrasse.
Caí abaixo do cavalo…muitas vezes já tinha caído abaixo do cavalo, mas não dava muita importância e seguia o meu caminho, cego pelas minhas causas e lutas que eu julgava serem de enorme valor. Mas desta vez, quando cai do cavalo, não encontrei fuga na indiferença, sabia que eras Tu que me dizias no meu mais fundo: “Porque me persegues?”.
Foi aí que comecei a ver que alguma coisa me iluminava e me fazia reparar que viver é mais do que um dia não acordar. Sim Senhor, eu sei que algo me iluminava e me fazia querer sempre mais, porque quiseste que das trevas resplandecesse a luz e Tu mesmo brilhaste no meu coração. Tu fizeste-me cair do cavalo…tu levantaste-me do chão…tu conduziste-me…Tu deste-me força para amar todos, sejam escravos, homens livres, judeus, romanos…Tu…Tu deste-me tudo…Tu deste-Te a mim. Depois disto só queria pegar num megafone gigante e gritar a todo o mundo “Eu vi o Senhor”! Pois sei a quem me entrego, sei a quem entrego a minha vida.
Ainda hoje muitos não entendem este meu desejo de anunciar-Te, Jesus. Os judeus acusam-me de ser traidor, os cristãos retaliam-se das mortes que eu lhes fiz, os romanos acusam-me de perverter o povo, mas nada disso me atormenta mesmo sendo atribulado e perseguido nunca serei vencido, pois sei que estás comigo. E que grande consolação é para mim ser perseguido por anunciar o Teu nome, não só nas sinagogas e nas cartas, mas anunciar-Te acima de tudo com a minha vida.
Sabes Senhor, ontem escrevi uma carta à comunidade de Corinto e disse-lhes que nós, os Teus seguidores, não nos pregamos a nós, mas a Ti, e apenas o fazemos porque Te amamos e porque Tu nos amas. Acho que é nesta frase que se firma a minha caminhada para Ti, porque só em Ti a minha vida ganha sentido. Não, não Senhor, não vou baixar os braços. Eles batem-me, castigam-me, prendem-me…mas Tu não me deixas…não desistirei de dizer quem és, nem que por isso perca amigos, perca meus hábitos, mesmo que perca a minha vida…Tu nunca me hás de deixar. Tudo muda, já nem sei se um mais um são dois, só sei que Tu me amas e sabendo isto não vou parar, irei aonde me queres levar, porque sei que tenho o tesouro do Teu amor dentro de mim, que sou como vaso de barro, frágil mas não fraco. Levarei este tesouro a todo lado para que todos possam ver que ele vem de Ti, e não de mim.
Sim Senhor, a luz que fizeste crescer em mim transformou-se em fogo…fogo com o qual quero incendiar todo o mundo…incendiar o mundo com o Teu amor!

Espera, eu Paulo estou a espalhar o Teu nome? Senhor, sinto-me tão pequeno a fazer algo tão grande…ainda por cima eu que tantas vezes faço o mal que não quero e não faço o bem que quero. Mas é por isso mesmo que me chamas e chamas todos os homens, não para se subjugarem a Ti mas para serem felizes amando sem limites e desinteressadamente, tal como Tu amaste quando há uns anos em Jerusalém abriste os braços para me abraçar. É esse abraço de vida que eu quero levar a todos para que reparem que quem se deixa perder no amor de Deus jamais irá perder alegria, pois grande é o peso da glória que o espera.
Por isso Senhor de nada me valem as melhores palavras, os melhores conhecimentos, a melhor voz, as melhores roupas, os olhos mais bonitos, os cabelos mais bonitos, saber tocar mil e um instrumentos, conhecer o mundo melhor que ninguém, ter a maior coragem, a maior fé nos céus e na terra, de nada me vale até as mais longas orações porque se não for capaz de aceitar o desafio de Te seguir, mesmo que seja gozado por todos, desprezado, deixado pelos amigos e até mesmo tido como louco, se não for capaz disto por Ti, não tenho amor, e serei como bronze que ressoa, ou como címbalo que tine, pois de nada me valem as palavras ocas, de nada me vale ficar parado a olhar se o que quero é seguir-Te!
Sim, seguir-te-ei Senhor até aonde quer que vás, porque sei que um dia Tu fixaste meus olhos, ternamente meu nome disseste…desde aí não sou Saulo o famoso judeu, culto e sábio, de família abastada, com o título de cidadão romano, judeu convicto das suas crenças, perseguidor dos cristãos, nem sou Paulo o pregador…sou Teu!
Leva-me aonde quiseres Jesus…é o teu nome que anunciarei, sim Senhor anunciarei a Boa Nova, direi a todos como amas o mundo…Seja feita a Tua vontade…”Senhor, aqui estou, que queres que eu faça?”

07 Novembro 2005

George McGerry (Servir)


Olá a todos. Como estão? Para quem não me conhece ou não se lembra de mim sou George McGerry. Nasci, vivo e cresço em Liverpool. Tenho 60 anos e sou jornalista. Estou-vos a relatar mais uma das minhas antigas experiências jornalísticas, há cerca de dez anos. Experiências essas que me fazem crescer sempre em direcção a um bem que… a um bem que não tem tecto!
Enfim… depois da morte do velho Paul decidi não deixar esmorecer um simples dia que, no meu coração, durou mais do que 24 horas… durou o suficiente para eu entender que de facto viver não é um dia não acordar….é servir! Mas servir o quê? Quem? Para quê? Como?




7:00 Como todos os dias o despertador cacarejou. Depois de um banho e de um pequeno-almoço rápidos recebi uma notícia da minha adorada Mary:
- George, o Mike está doente e tem febre.
- Não estará ele a fazer fita para não ir à escola? - Disse eu.
- Ele é parecido contigo mas nem tanto.
De facto tentei fazer força para não me rir, mas não conseguia, ela bem se lembrava dos tempos em que, no liceu, eu me abrigava nos atestados médicos do meu pai para faltar à escola e preparar novas cartas de amor para lhe escrever. Pois, com amores antigos já conhecêssemos as nossas manhas.
Naquele dia levava somente a Rita para a escola, porque o John tinha tido uma visita de estudo à Escócia. O Mike continuava a perguntar “quando é que o John volta lá da terra dos homens que se vestem à mulher?”
Despedi-me da Mary, entrei no carro e lá vinha a Rita a correr limpando umas quantas migalhitas de pão que lhe tinham ficado na boca.
- Papá –disse ela.
- Diz.
- Sabes, acho que ultimamente tens dado muita importância ao jornalismo e pouca a nós, lá em casa.
Aquilo caíra-me que nem uma bomba! Agora que eu me tinha começado a preocupar-me com coisas diferentes, novas e transformadoras é que tudo estava mal? Não sei muito bem o que tinha encontrado. Seria Deus ou não? Mas, a verdade é que, aquilo que descobri lembrava-me os tempos de criança, quando provava as novas compotas da minha avó Emely, uma doçura diferente e muito rica. Aquela afirmação deixava-me de rastos. Fiz alguma coisa mal?
De facto já há muito tempo que não estava tantas vezes com eles, e me preocupava em escrever novos artigos sobre o Paul… se calhar tinha-me descuidado… Fiquei alguns segundo em silêncio.
- Tens razão – disse eu – nestes últimos tempos de facto não tenho estado muito convosco. Mas eu também não sei muito o que fazer. Será que devo rapar o bigode para a Mary gostar mais de mim?
- Oh pai, não sejas parvito. Leva-a ao cinema. Vai ao quarto do Mike levar-lhe o jantar, agora que ele está doente. Ajuda o John nos trabalhos de casa. Papá, tu sabes melhor que ninguém, que há tantas maneiras de dizer “gosto de ti”.
Fazia-me lembrar a mãe. Aqueles olhos vivos, aquela voz que trazia e abria novos horizontes. Como uma criança na escola, sentado ao volante…aprendia. Mas entretanto chegamos à escola.
- Não te esqueças do que te disse, papá!
- Não, não me esqueço. E obrigado Rita.
Ela sorriu e num salto meio desajeitado saiu do carro e foi logo de encontro às suas amigas.
Sorri, desviei o olhar, segui o meu caminho…estrada fora, dia adiante! As rodas deslizavam, a jeito de quadrúpede, na monotonia do trânsito, para uns eloquente, para outros “boring”! Lembro-me que registei uma frase que estava escrita nas paredes de uma monumental casa novecentista: “Nunca mãos vazias deram tanto”. Primeiro nunca gostei dessa parvoíce de escreverem nas paredes, e depois pensei: “Que estupidez, como é que uma coisa vazia pode dar alguma coisa? Este mundo está maluco ou é impressão minha?”
Uns quilómetros antes de chegar ao trabalho um carro bateu-me. Comecei a resmungar com ele. Um sentimento estranho invadiu-me, parecia que já me tinha esquecido de tudo o que a minha filha me dissera, só por causa de um arranhão na pintura do carro. A verdade é que fora de mim consegui por o pobre velho a ficar nervoso. Quando lhe gritei mais, o pobre homem começou a chorar.
Como que escondido na minha conchinha de orgulho fui-me embora. Mas em voz trémula e agradecida o pobre homem disse-me:
- Obrigado por me ter perdoado.
Nessa hora fugi a sete pés. Aquele agradecimento estranho fez-me lembrar o velho Paul, fez-me lembrar que fizera algo de errado. Fui rapidamente para a deserta rua 23. O santuário do velho amigo Paul. Amigo por um dia, qui sá para sempre?
Nesse dia nem liguei para a Mary, nem para saber sequer do Mike. Não dei sequer um “bom dia” aos meus companheiros. Amuei nas minhas fraquezas, remoendo por dentro com os remorsos de aquela atitude tão má, por causa de um mero toque no carro.
“Porque é que fui tão mau? Eu sou mesmo fraco! Cedo em relação a tudo e nunca faço nada desta vida! Porque é que Deus não nos faz fazer o bem? Parece tudo uma farsa, a minha vida parece uma farsa”!
Entretanto sol rasgava lentamente o céu, em lentos raios perfurantes. Recebi uma mensagem. Olhei para o telemóvel. Era uma mensagem da minha Rita.

“ Pai não te esqueças
do que te disse.
Leva a mãe ao cinema,
Ajuda a tratar do Mike…
O Paul faria o mesmo. Bjinhos”

Não sei! Não sei mesmo o que foi que me fez sair do meu trabalho na hora do almoço para ir buscar a Mary ao seu escritório de advogada. Fiz-lhe uma surpresa. Almoçamos e de seguida vimos um filme no cinema. Lembro-me… lembro-me que o meu relógio já marcava as 2 da tarde quando comprei dois bilhetes para um concerto dos U2 para o John e para a namorada dele.
Levei-a ao escritório e de seguida sem dizer nada a ninguém fui a casa onde se encontrava o Mike com a senhora Susan. Uma senhora dos seus 70 anos que quando estava alguém doente ela ia acompanha-lo…que simpatia. Fui ao quarto do Mike e dei-lhe de beber um chá quente que tinha preparado. Finalmente entendera que o verdadeiro amor e felicidade não está no que se dá, mas sim na maneira como damos aquilo que damos, entendem?
Sentia-me tão feliz pelo que fizera, mesmo depois de o Dr Richard me ter telefonado a mandar um sermão por não lhe ter avisado que não ia trabalhar de tarde. Mas naquela altura, tudo para mim era secundário, excepto o tudo que tinha feito.
Mais tarde chegaram todos a casa. A Rita tinha juntado uns trocos e comprara um bolo. Todos juntos tivemos um jantar especial. Foi o meu primeiro jantar especial em família, em que não haviam gravatas, bons vinhos, comidas fantásticas, empregados de mesa, etiquetas, conversas elevadas. Havíamos nós! Haveria Deus? Na altura perguntei-me, mas hoje tenho a certeza que sim. Tudo foi tão bom.
Foi aqui que percebi que a simplicidade não é ser miserável, mas é fazer das pequenas coisas grandes. Nesse dia fui eu a lavar a loiça e foi das maiores entregas de mim mesmo que alguma vez fiz. Percebem? Fiz duma pequena coisa grande, não pelo que fiz, mas pelo amor que pus no que fiz. Qual foi a força que nos moveu para este dia cheio de amores gratuitos? É aqui que Deus começa… é aqui que Deus está…é aqui que Deus não acaba…!
De noite fui fumar um cigarro enquanto olhava o firmamento. Um habito que ganhei de criança quando a minha avó Emely cantava uma canção da sua terra natal, enquanto algumas três lágrimas se agarravam nas suas ternas rugas de avó: “Firmamento, é o céu azul, remendado com estrelas, desde o norte ao sul, desde o mar às montanhas, desde o coração às nossas entranhas”.
Naquela altura fui surpreendido com os passos calmos da Rita. Chegou, olhou-me, sorriu, sentou-se comigo no chão. E em silêncio, saboreamos a suavidade de alguns minutos… sabíamos o que estávamos ambos a pensar. De repente ela perguntou-me:
- Papá, como fizemos isto?
Não sei. Mas não sei mesmo porquê, nem como mas saiu-me uma frase que só ali tivera sentido e que de absurdo passou a ser a grande verdade que conquistou o meu coração.
- Rita, não sei bem como, mas acho que foi Deus, o amor em nós. De facto “nunca mãos vazias deram tanto”!
- Sabes papá, gosto muito de ti!
Abraçou-se a mim.
- Sabes Rita, estou muito orgulhoso de ti!
Pai e filha… olhamos muito tempo o céu sem trocarmos uma única palavra. Comovidos? Felizes? Contentes? Alegres? …? Não! Vivos com sentido! Vivos por amar desmedidamente o que parece impossível.
No dia seguinte acordei e depois de ter levado o Mike, já curado, e a Rita, fui para o trabalho. Sentia-me como o Mike… curado! Sentia-me como o Paul… com sentido!
Estava a dirigir-me para o trabalho e vi um carro estacionado. Era o carro do velho senhor que no dia anterior tinha batido no meu carro. Estacionei o meu carro. Corri e entrei num café próximo onde encontrei o pobre senhor, sozinho a tomar um copo de leite e um pão. Ele olhou-me com um certo receio que lhe fosse exigir algo. Mas eu abracei-o e pedi-lhe perdão pelo meu acto vergonhoso e repleto de orgulho.
Ele comoveu-se e disse que há muito tempo que ninguém lhe dava aquela atenção. Eu sorri, paguei-lhe o pequeno-almoço e comprei-lhe um croissant misto.
Fui-me embora, mas ele interpelou-me antes de eu sair.
- Sabe meu senhor, eu não sou rico. Mas o senhor é muito.
- Olhe que não sou assim tão rico! – disse sorrindo.
- Mas o seu coração é! Vou-lhe dar um papel que um dia um grande amigo meu me deu. É a única coisa que lhe posso dar, é o melhor que tenho. Entregou-mo. Eu sorri e fui para o carro. Quando lá cheguei abri o papel e vi uma carta que terminava da seguinte forma:
“Meu amigo, ATREVE-TE! Um abraço deste teu amigo para sempre: Paul, o louco feliz e varredor de ruas”
Ao ler aquilo desatei a correr a ver se encontrava o senhor. Mas já não vi ninguém. Mas depois parei de correr e percebi que o meu coração tinha crescido mais uns centímetros. Afinal “nunca mãos vazias deram tanto”!
Eram 10:00 da manhã. Fechei o bloco. Era cedo mas, já tinha artigo!